• Ana Maria Bahiana

Vintage: Lembrando um evento inesquecível - Rock in Rio 1985, dia 1

O sol saiu depois de dias de chuva, e encontrou a Cidade do Rock de verde e amarelo. Centenas, milhares de pessoas, vestindo camisetas verdes e amarelas, bonés verdes e amarelos, bandeirinhas, camisas da seleção… Histórico, comovente e mais que um pouco irônico, considerando o quanto de aperto a música em geral – e o rock ali no bolo- tem passado nos últimos vinte anos: cá estamos todos nós, de verde e amarelo, celebrando nosso presidente civil, Tancredo Neves…. num show de rock!


Ney Matogrosso abriu a noite com uma chamada geral : “Deus salve a América do Sul!”. Com seu visual índio-art deco, de tanga, elaborado cocar a e uma queixada na mão , Ney era o homem de neanderthal para uma nova era, à vontade num palco tão imenso que poderia facilmente engolir alguém de menor carisma. A galera no gargarejo pegou o embalo imediatamente, e um zum zum de vaia foi contido com uma poderosa “Pro Dia Nascer Feliz”, acalmando os ânimos roqueiros.


Erasmo Carlos não teve a mesma sorte: o set começou bem, mas rapidamente desabou debaixo de vaias maciças, acompanhadas de chuvas de copos de papel. O Tremendão segurou a onda: encourado e tacheado no melhor estilo biker, ele propôs, por cima do coro de vaias – “Eu queria oferecer essa energia de todos nós a muitos dos nossos que já se foram, que estão aqui conosco. Big Boy! Janis Joplin! Jimi Hendrix! John Lennon! E o rei do rock n roll, Elvis Presley!” A platéia enlouqueceu, aplaudindo todos os nomes e explodindo em festa com um medley Jovem Guarda em ritmo acelerado.


Pepeu & Baby pegaram a boa onda. Baby linda, super grávida, barrigão de fora entre paetês e miçangas, botou até os roqueiros mais empedernidos para requebrar ao som de “Brasileirinho”. Pepeu, no auge da forma como guitarrista que entende tanto o suíngue brasileiro quanto a pegada do rock, fechou o tempo. E deixou o povo no ponto para o peso total que veio a seguir…


Era isso que a galera estava esperando. “Rock in Rio, are you ready?”, David Coverdale saudou a massa, antes de arrasar com uma versão pesada de “Walking in the Shadow of the Blues”. Pronto, agora a Cidade do Rock estava entregue. O Whitesnake comprovou sua força de raiz nos blues, com muita eletricidade por cima, mais o vozeirão e a cabeleira De Coverdale, com todas aquelas presepadas que a galera adora.


Não deu nem para ouvir a voz de Winston Churchill no seu famoso discurso durante a Segunda Guerra Mundial (“lutaremos os campos, nas colinas, nas ruas, jamais nos renderemos”): a Cidade do Rock já estava ululando pelo Iron Maiden. E de “Aces High” a “Iron Maiden”, espichando por um merecido bis de três músicas, a platéia era deles.


Quando o Queen pisou no palco, tudo estava no lugar certo. Um showzaço com um visual sensacional de luz e cor, um repertório de todos os grandes sucessos, Freddie Mercury esbanjando carisma e recebendo de volta o maior coral que poderia desejar- a Cidade do Rock cantando com ele “Love of My Life”.


Belo começo para um evento que já é, ele mesmo, um belo começo.


(Especial Rock in Rio, Janeiro 2015)



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