• Ana Maria Bahiana

Super Vintage: Cobrindo a Turnê de Michael Jackson pelo Japão, 1987

A delícia e a aventura que foi essa viagem eu não esqueço jamais. Foi minha segunda visita ao Japão (iria fazer duas mais) e eu fiquei cada vez mais apaixonada pela terra e pelas pessoas. E além de muito trem-bala, uma tarde num tempo de Osaka que lavou minha alma.



Resumo do capítulo anterior: em 82, o caçula Jackson lançou Thriller, o LP mais vendido da história da fonografia mundial, foram 38 milhões de cópias. Cinco anos depois, ele está de volta. Seu objetivo: quebrar o próprio recorde e vender 100 milhões de discos. Seu desejo secreto: tornar-se um arquimilionário antes dos 30 anos.

Dia 9 de setembro. Michael Jackson, seu empresário Frank Dileo, seu cozinheiro, seu chimpanzé de estimação, Bubbles (com o treinador), e mais uma equipe que ultrapassa 50 pessoas desembarcam no aeroporto de Narita, próximo a Tóquio, no Japão, para iniciar a turnê que o levará a praticamente todos os continentes ao longo de 18 meses.

Manhã de sábado em Tóquio. Uma imensa bancada que ocupa dois terços do andar de baixo da Toy Park, a maior loja de brinquedos de Tóquio e autoproclamada maior do Japão. Transformers, robôs, jogos de tabuleiro, bonecas de quimono, tudo isso foi relegado ao fundo da loja, aos outros quatro andares. O ponto nobre de vendas da Toy Park está dedicado ao produto nobre da estação: os Bonecos Michael, divididos em dois tipos - réplicas exatas de Michael Jackson em pessoa, jaquetinha, luvas glitter, chapéu e tudo mais (3 mil ienes, cerca de US$ 14) e os Michael's Pets, bichos de pelúcia que reproduzem, fantasiosamente, alguns dos animais de estimação que habitam a mansão do cantor em Encino, Los Angeles. Foram esses que Michael distribuiu para as crianças japonesas, numa festinha para 100 convidados num salão do luxuoso Hotel Capital Tóquio: Spanky, um cachorro; Cool Bear, um urso; Mr. Bell, mal-encarado buldogue; e, é claro, Bubbles, o chimpanzé. Bubbles em pessoa - com o mesmo macacão de jeans e a mesma camiseta listrada de seu boneco - compareceu à festa, uma mistura de boas-vindas e lançamento oficial dos Michael¿s Pets no Japão: 30 japonesas cantaram e dançaram, refrescos foram servidos e Michael Jackson ficou no salão por uma hora, sorrindo muito, abraçando as crianças e deixando-se fotografar.

A poucos metros dali, na igualmente gigantesca loja de discos Yamano, no coração da famosa Ginza Strip, supercentro de compras de Tóquio, o gerente também está sorrindo: sua loja lidera o tilintante cortejo de boas vendas do LP/cassete/CD Bad no Japão: 4 mil unidades vendidas em três semanas, uma gota considerável num oceano que já tem 550 mil cópias vendidas e não mostra sinais de diminuir. Bad está, evidentemente, em primeiro lugar numa parada que tem pouquíssimos estrangeiros (Suzanne Vega e Whitney Houston são seus únicos companheiros gaijin). "E sabe do que mais?", sorri o gerente, "Veja quem reapareceu em sexto lugar na parada: Thriller, ele mesmo. Não é surpreendente?"

A verdadeira trilha sonora da turnê de Michael Jackson é o doce som dos negócios. Nenhum mercado é tão exemplarmente consumidor quanto o japonês: vive-se aqui numa espécie de capitalismo fluido, ultrassegmentado, onde o consumo é rigorosamente orientado por faixa etária e estilo de vida e onde o dinheiro circula numa velocidade tão grande quanto a do trem-bala, o Shinkansen, que desenvolve 240 km/h sem sequer balançar. É o antisshogunato: ninguém tem dinheiro suficiente para comprar terra ou imóveis, e os ultrapotentes carros são inúteis em ruas e avenidas permanentemente congestionadas. Com o iene, então, compram-se bens transitórios: roupas novas, gadgets (objetos ao mesmo tempo decorativos e utilitários), equipamentos sofisticadíssimos de som e vídeo, computadores portáteis, compact discs, bonecos de pelúcia, ingressos para shows. Aqui Michael poderia testar em paz o músculo de seu projeto, conhecer o potencial e as limitações do seu sonho, organizar melhor sua estratégia.

Assim foi feito, e Jackson/Dileo acharam parceiros à altura: a Pepsi-Cola e o conglomerado NTT, Nippon Television and Telecommunications, um gigante de telecomunicações recentemente privatizado.

A Pepsi não está ganhando dinheiro diretamente com os shows. Mas em julho e agosto, meses-pique da campanha pré-Michael Jackson, suas vendas dobraram. A NTT está arrecadando a parte gorda da venda de ingressos - depois que a MJJ de Michael e Dileo retira sua porcentagem, que, ao término da excursão, representará cerca de 3 bilhões de ienes (cerca de US$ 2 milhões), despesas incluídas. Os Michael's Pets e toda a parafernália de souvenires que acompanha a turnê - de camisetas de 2 mil ienes (menos de US$ 14) a chapéus de 4,5 mil ienes (cerca de US$ 32) - são assuntos controlados pessoalmente por Jackson e Dileo, através de licenciamento de marcas. A gravadora Epic/Sony - a CBS japonesa - entra como apoiadora, cuidando de promoção, publicidade e mar­keting e recolhendo os frutos de uma vendagem que, segundo o gerente internacional de produtos, Akihiko Shimizu, promete ser histórica. "Estamos indo numa velocidade excepcional e vendemos em um mês o que planejávamos para um semestre", ele diz.

Tarde de segunda em Aoyma. No imenso escritório da Epic/Sony em Tóquio - um andar no elegante prédio Aoyama Twin, em frente aos jardins do palácio de hóspedes do imperador -, Michael Jackson está por toda parte: nos pôsteres pelas paredes, nos buttons pregados nas blusas das recepcionistas, em camisetas vestidas pelos funcionários. Akihiko, o jovem gerente internacional, está vestindo uma delas enquanto explica que, a princípio, a gravadora ficou surpresa e não muito satisfeita com o fato de o Japão ser o ponto de partida da turnê mundial de Michael Jackson. "Começar pelo Japão não foi ideia nossa e, francamente, nossa primeira reação foi negativa. Sabe como é, existe a ideia de que um show começando fora dos Estados Unidos e da Europa é mais um ensaio, não está completo... Havia o impacto recente dos shows da Madonna e a fama de esquisitice que Michael Jackson tinha desenvolvido nos últimos anos." Akihiko acende mais um cigarro: "Fizemos o possível para desmanchar essa impressão. Nossa campanha foi toda no sentido de mostrar Michael como um artista com um passado importante no pop, e não apenas como uma curiosidade a partir de Thriller, que era a imagem que ele tinha no Japão". Michael tem ajudado nesse sentido? Akihiko suspira e traga o cigarro: "Ele não foi à própria coletiva, aqui em Tóquio". Ele faz uma pausa longa, típica da circundante fala japonesa formal. "Quincy Jones está cem por cento certo, sabe? Michael é uma mistura perfeita de criança e inteligentíssimo homem de negócios."

Para a imprensa japonesa, habilmente manobrada pelos esforços conjuntos da Epic/Sony e da MJJ, foi servido, em abundância, o Michael-criança. Entrevistas, nem pensar, mas as fotos foram amplamente facilitadas, assim como um estoque sempre renovado de notinhas amenas. Michael sorridente, Bubbles à côté, abraçado às crianças na festa de lançamento dos Michael¿s Pets. Michael no carro da roda-gigante do parque de diversões Korakuen, onde fica o estádio dos shows de Tóquio, e que ele alugou por duas horas na tarde do dia 10, para se divertir com 50 convidados. A suíte do Hotel Capital Tóquio, que ele mandou redecorar, incluindo videogames, central de som e vídeo, chão de mármore branco e novos papéis de parede, para eliminar o cheiro de cigarro. Os brinquedos que comprou numa visita à loja Kiddy Lands, na avenida Ometesando (dois bloquinhos, uma pipa, duas canetas, meros 2 mil ienes, cerca de US$ 14). A visita à fábrica da Sony, para conhecer as últimas novidades tecnológicas. O cozinheiro particular que prepara suas refeições vegetarianas e os sucos de frutas que compõem seu desjejum semanal aos domingos.

A imprensa reagiu à altura: encantada. "Ele é muito mais simpático e gentil do que esperávamos", resumiu a revista semanal Focus, guia de diversões. "Michael Jackson tem sido uma surpresa para os japoneses", admitiu o jornal Sanke Sports (por alguma razão niponicamente misteriosa, são os jornais esportivos que cobrem show business).

Enquanto isso, a revista semanal de notícias Shukan Shicho fez as contas: os 13 shows japoneses de Michael serão vistos por cerca de 370 mil pessoas, arrebanhando um público muito diferente do de sua rival mais recente, Madonna: não apenas adolescentes em bando, diz a revista, mas crianças e seus pais.

Surpreso e feliz, Akihiko Shimizu concorda: "Michael está se tornando uma exceção absoluta no Japão - ele é o primeiro artista que vejo atrair todas as faixas de público, de crianças a senhoras, de teenagers a salary men (nome genérico para profissionais de qualquer categoria, no Japão), que vão aos shows de gravatinha e tudo. Nenhum artista japonês, cantando em japonês, conseguiria isso".

Noite de domingo em Osaka. Silencioso, o trem corta a noite úmida do centro-oeste japonês, partindo de Tóquio, a nova capital, a capital do leste, rumo a Osaka, que nunca foi capital, mas sempre foi centro de poder - e que, por isso, mantém com Tóquio uma longa e amigável rixa estilo Rio-São Paulo (Osaka sendo São Paulo, o que é estranho, já que Tóquio é a coisa mais parecida com São Paulo desde São Paulo). Osaka é uma cidade de negócios, rica, dura, um contraste com sua doce vizinha, a antiga, elegante e aristocrática Kyoto, velha capital do Japão. Entretanto, as casas minúsculas e os gigantescos prédios que o trem revela ao flutuar, aço imponderável, sobre seus quintais, são quase miseráveis para padrões de primeiro mundo: caixas de morar onde muitas vezes duas ou três famílias ocupam o mesmo quarto-e-sala, roupas secando na varanda, comida preparada em fogareiro num canto da sala (ao lado, provavelmente, de um moderníssimo televisor/videocassete). Esse é o público que parte, em bandos alegres, para ver Michael Jackson na segunda parte de sua Japan Tour: os filhos dessas famílias das caixas de morar, meninos e meninas que estudam 12 horas por dia, seis dias por semana, e preferem conversar a ir ao cinema, e comprar a namorar.

Num fluxo ininterrupto, os bandos descem da estação de Nuishyinomis em direção ao estádio - que não tem estacionamento, e para quê? (O tumulto dessa multidão pelas ruelas e vilas em torno do estádio tem sido tamanho que a Kyoto Tokyo Inc., promotora dos shows, distribuiu 150 ingressos pelo bairro, para sossegar a vizinhança.) Em volta do estádio, entre barracas de suvenires, balcões de sushi e soba - macarrão, uma das comidas mais baratas e populares do país - e confeitarias, os cambistas tentam negócios de última hora: todos os concertos japoneses estando vendidos por completo, um ingresso passa dos 5 mil a 6,5 mil oficiais para qualquer coisa entre 7 mil e 140 mil ienes!

Às 18h30, o estádio - 30 mil lugares - está ordeiramente lotado por uma plateia inacreditavelmente híbrida para padrões japoneses: yuppies em ternos Issey Myiake, famílias inteiras com crianças, mocinhas em vestido de festa, rockers de jaqueta de couro e até senhoras em quimonos tradicionais. O sistema de som toca Peter Gabriel, e os vendedores ambulantes fornecem sunakus, saquinhos de biscoitos salgado e nozes, café com leite em lata gelado e, é claro, Pepsi-Cola.

Às 19 horas um rufar surdo eletrônico anuncia que o show vai começar, iluminam-se as telas laterais de vídeo que cercam os 18 m2 do palco, meninas começam a gritar, senhoras de quimono sobem nas frágeis cadeiras de dobrar: de um praticável inteiramente estruturado em luzes, Michael Jackson emerge no centro do palco, cercado por sua banda (sete músicos, inclusive uma guitarrista loura de quase 2 metros de altura), mais quatro cantores (que também dançam) e quatro dançarinos (que também cantam). A música de abertura é Wanna Be Starting Something, em tempo acelerado - um ritmo funk frenético, bem mais para Prince do que para Jackson, que marcará os 90 minutos de show. O visual de todos é glam/mad max: paetês e lamê e cabelos à moicano, Michael de negro e brilhos, rabo-de-cavalo, muito magro, uma variação de luxo da capa do LP.

O efeito é devastadoramente eficiente: sem parar, Michael emenda Things I Do For You e 0ff the Wall, numa coreografia que ocupa toda a área do palco e inclui os clássicos passos - Michael num contexto muito mais sensual e agressivo. As mocinhas em vestido de festa gritam muito cada vez que ele rebola e sugere que está passando a mão no pau, uma novidade na cena pop japonesa, onde os aidorus, os ídolos juvenis, são rigorosamente anódinos.

Em Human Nature, o show muda ligeiramente de curso: uma chuva de laser colorido inunda o palco, e Michael fica sozinho em cena pela primeira vez - parece incrivelmente concentrado, quase alheio à presença da plateia, e canta com um punch surpreendente - no final, fazendo seu clássico moonwalk (o passinho para trás característico dos breakers) sob uma cascata de lasers. Heartbreak Hotel - que não é a de Elvis - vem a seguir, precedida de um texto falado (incompreensível com certeza para a maioria da plateia, cujos conhecimentos de inglês são incrivelmente limitados): "Caminhando pela rua, sozinho e infeliz, só via aquele cartaz vermelho piscando sua mensagem insistente: hotel". She¿s Out of My Life mantém o clima intimista/solitário: superbalada. Michael canta aos soluços, dando a entender que está chorando (a plateia pontua tudo com aaas e ooos, parece convencida de que ele está chorando mesmo: entretanto, ele tem incluído essa rotina em todos os shows japoneses).

"Vamos lhe dar canções antigas do jeito antigo", Michael anuncia numa das pouquíssimas intervenções faladas (as outras duas, ao longo do show, são para dizer domo arigatô, "muito obrigado", e konbawa, Osaka, "boa-noite, Osaka") e lidera cantores e dançarinos num medley de sucessos dos Jacksons, com direito a todos os passinhos tradicionais de grupos. Um frenético show de luzes e coreografia non stop (assinada pelo próprio Michael) estabelece o tom de festa nas músicas seguintes - Rock with You e My Lovely One - até a apoteose de Working Day and Night: primeiro, num gesto que a imprensa tem chamado de "surpreendente", desce para a primeira fila da plateia e aperta as mãos de vários adolescentes em êxtase absoluto. Depois, sobe uma escada gigantesca no centro do palco e simplesmente desaparece sob uma cortina prateada para reaparecer 15 metros adiante, sobre uma grua, com uma roupa diferente e sem perder um compasso da canção. Com Nishyinomia em delírio, Michael e os dançarinos se ocupam do terço final, o mais infeliz do show: uma tentativa frustrada de reproduzir no palco coreografias e climas dos videoclips de Beat It, Billie Jean e Thriller. Billie Jean é salva pela elegância da coreografia solo de Michael - sua rotina clássica, com luvinhas, meias brilhantes, chapéu e tudo, mas ainda merecedora da aprovação de um Fred Astaire. Beat It fica positivamente canhestra. Thriller quase parece show dublado de calouros, até que a iluminação muda e roupas e maquiagem assumem um tom convincentemente fantasmagórico. I Just Can¿t Stop Loving You e Bad ficam guardadas para o bis, é claro. No último dia em Osaka. Michael dedicou I Just Can¿t Stop... aos pais de um menino de 5 anos, Yoshyaki, raptado e assassinado dois dias antes, e fez um breve discurso sobre como essas coisas terríveis e dolorosas não podem mais acontecer em nosso mundo. Bad, apesar de atacada fora do tom por Michael, resiste bem à prova de palco. E não adianta o público pedir mais - 90 minutos e 16 canções depois, Michael dá seu espetáculo por encerrado. Fila a fila, setor por setor, sem empurrões, os 30 mil espectadores deixam Nishyinomia.

No dia 23 de setembro, Michael Jackson e sua equipe retornarão a Tóquio para mais um show - desta vez em Yokohama, a 40 minutos da capital - e uma visita à Disneylândia japonesa, onde seu filmete Captain EO é a grande atração. Felicíssimo com os resultados da Japan Tour, Frank Dileo já anunciou mais três shows na área de Tóquio, sempre nos fins de semana, para atender às necessidades específicas do público japonês, embora isso implique gastos mais elevados de permanência. Por meio de sua assessoria de imprensa, Michael Jackson em pessoa permitiu-se um pronunciamento público: "O Japão", ele disse, "é um dos mais fantásticos países do mundo e estou profundamente grato". Obviamente ele sabe o que diz.


Bizz, outubro 1987


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