• Ana Maria Bahiana

Qual a propriedade intelectual mais quente do momento? O livro.

Updated: Jun 30





Num debate recente, durante minha passagem pelo Brasil para o lançamento do Almanaque 1964, aprendi que, na terra onde nasci, literatura tem grande dificuldade em ser ao mesmo tempo respeitada e consumida.


A ideia me chocou e me fascinou – talvez porque, nos últimos meses, eu venha acompanhando de perto, por vários motivos, a fome insaciável da indústria audiovisual, aqui, por livros, livros a mancheia. Uso a expressão “indústria audiovisual” intencionalmente – faz tempo que cinema e TV, antes rivais pelos amores da platéia, estão de mãos dadas num caloroso romance. E compartilham, além de talentos, ideias e público, esse apetite pela criação literária.


E não, não estou falando exclusivamente de obras infanto-juvenis ou de auto ajuda. “Eu diria que 99% do interesse de executivos e produtores, hoje, é voltado para livros”, me disse um agente especializado em representação literária numa das maiores agências de Los Angeles. “A era de supremacia do roteiro original parece cada vez mais distante. Hoje todos querem saber qual é o próximo grande livro.”


A estimativa do meu conhecido é mais do que correta. Pelos cálculos da revista Variety existem hoje mais de uma centena de obras literárias sendo adaptadas para cinema ou TV. Até o meados do ano que vem 36 deles terão sido lançados nos Estados Unidos e ao redor do mundo _ eles vão de séries adolescentes como Jogos Vorazes e Divergente a obras de Joan Didion (A Book of Common Prayer), Thomas Hardy (Far From the Madding Crowd, que já foi adaptada quatro vezes para telas grandes e pequenas), Nick Hornby (A Long Way Down), Elmore Leonard (The Switch) e Thomas Pynchon (Inherent Vice).


Enquanto isso, na TV, Game of Thrones, baseado nos livros Uma Canção de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, torna-se a série mais vista de toda a história da HBO, a Netflix emplaca a segunda temporada de Orange is The New Black, baseada no livro do mesmo nome de Piper Kerman e a Starz transforma a pesquisa histórica Washington’s Spies na série Turn. Isso sem falar em True Blood, baseada nos livros de Charlaine Harris, e na nova The Leftovers, adaptada do livro homônimo de Tom Perrota.


O roteiro original, a obra escrita expressamente para a tela, teve vários momentos de glória – o mais recente nos anos 1980 e 90, quando tanto o cinemão comercial quanto o cineminha independente procuravam o conceito perfeito, a ideia tão condensada, precisa e original que podia, sozinha, ancorar toda uma narrativa audiovisual. Duro de Matar num ônibus! (Velocidade Máxima) Quatro histórias de crime e castigo em Los Angeles! (Pulp Fiction).


Nesses tempos mais simples, uma única história servia para o gasto: para se pagar nas bilheterias, dar lucro, lançar carreiras.


Não vivemos mais nesses tempos singelos – as plateias da segunda década do século 21 são superestimuladas, inconstantes, desatentas. Narrativas, por si mesmas, não apetecem mais. São precisos mitos, mundos, uma tapeçaria de experiências diversas.


E isso o livro faz como ninguém.


Quando um produtor opciona uma obra literária ele está comprando muito mais que uma trama ou um texto que já vem com todos os seus problemas estruturais resolvidos: está comprando o universo que o autor criou para seus personagens, o contexto que eles habitam (a famosa e tão difícil backstory dos roteiros), as indicações de novos possíveis caminhos paralelos a seguir. O livro tem o que o cinema ou a TV não podem, por designio, ter: todo o tempo do mundo, administrado de um lado por quem escreve, de outro por quem lê.


Além de tudo isso, o livro traz consigo um dos bens mais preciosos nesses tempos altamente competitivos: todos os seus leitores - ou seja, um bom naco de platéia, -praticamente garantido.


Não exagero quando digo que, hoje, não existe propriedade intelectual mais quente para a industria audiovisual do que um bom livro. Talvez apenas uma boa história em quadrinhos ou graphic novel. Mas o princípio é o mesmo… A trama bem urdida e apresentada, seja em ficção ou não ficção, é, hoje, o sonho de qualquer produtor que sabe o que está fazendo.


O que deixa aos roteiristas a quase sempre ingrata tarefa de adaptar o texto literário, com sua calma espraiada por páginas e mais páginas, para o rigoroso tempo condensado da tela. Mas isso, mais uma vez, já é outra história…



(Publicado originalmente no Blog da Companhia das Letras, 27 de agosto de 2014)








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