• Ana Maria Bahiana

Charlie Watts, estrela do cinema

Se você ainda não sabe (deve ser difícil, mas de todo modo...): Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, faleceu dia 24 de agosto, terça feira, em Londres. Tinha 80 anos muitíssimo bem vividos e muito mais: peça fundamental do rock - que, segundo um estudioso "definiu a bateria no rock 'n roll " - alicerce dos Rolling Stones, possivelmente o único integrante da banda capaz de separar as brigas fogosas de Mick Jagger e Keith Richards. E nesse momento é bom lembrar que esses três (mais Brian Jones, que já se foi para o grande show no céu) estavam juntos desde a adolescência.

Foto publicada por Keith Richards em suas plataformas online, em homenagem a Charlie Watts.

Em sua longa carreira como banda, os Stones tem, oficialmente, 13 documentários e um híbrido de ficção e doc. Em três deles, Charlie Watts tem uma presença especial.



Charlie Is My Darling, 1966

O primeiro documentário dos Stones já tinha o nome de Charlie no título porque, segundo o diretor Peter Whitehead, "a câmera parecia que gostava mais do Charlie do que dos outros. Ele sempre aparecia em cena muito melhor" (e a foto acima concorda plenamente.) Uma ideia do produtor Andrew Loog Oldham, Charlie Is My Darling acompanha dois dias numa turnê pela Irlanda, em 1965. O documentário teve uma pré-estréia num festival em 1966, mas nunca entrou no circuito porque, a essa altura, Oldham estava enrolado numa briga feia com seu ex-sócio, o carne-de-pescoço Allen Klein. Em 2012 o documentário foi restaurado e aumentado com trechos do filme que tinham se perdido, estreou no Festival de Cinema de Nova York, e foi lançado em DVD e BluRay. Hoje está no repertório das plataformas digitais da BBC. A trilha ao vivo do doc, Live 1965: Music From Charlie Is My Darling, é uma delícia à parte e está disponível no Spotify.


Sympathy for the Devil, 1968

Sympathy ForThe Devil (1968) é um filme que os fãs da nouvelle vague adoram, mas os stonemaníacos até agora não entendem nada. Não precisam: SFTD é uma reflexão sobre as múltiplas crises sociais do final dos anos 60, criada e realizada por Jean-Luc Godard, que se plantou no Olympic Studios de Londres e foi acompanhando o processo de criação da música que viria a ser um dos carros-chefe dos Stones. Ver "Sympathy" tomar forma é uma delícia que é interrompida regularmente por cinco vinhetas criadas por Godard envolvendo a Democracia, o Fascismo e o Black Power (representados respectivamente por Anne Wiazemsky, Iain Quarrier e Frankie Dymon). Como "Sympathy" é, na verdade, uma batucada inspirada pela visita de Mick & Keith ao Brasil no mesmo ano - 1968 - Charlie Watts tem que se virar para ir costurando a gravação, com Brian Jones nas maracas (é ele ao fundo, na foto).


Gimme Shelter, 1970

Mick Jagger é, sem dúvida, a estrela de Gimme Shelter (1970), o histórico documentário dos irmãos David e Albert Maysles, dois gigantes do doc de música, sobre a conturbada turnê da banda em 1969, que culminou com uma briga violenta e um assassinato em pleno show, no Autódromo de Altamont, na California. Acompanhar o trajeto até Altamont, e, sobretudo, estar praticamente dentro do palco, sabendo o que vai acontecer, e vivendo tudo ao lado dos Stones é uma experiência que recomendo a tod@s @s interessad@s na história do rock. Mick e Keith têm reações épicas - mas é Charlie Watts, impassível, pilotando sua bateria como um tanque de guerra, que segura tudo. A foto, de Michael Oates, é histórica, e conta muito do que aconteceu em Altamont.

Curiosidades curiosas: lá pelos idos de 1971, 72, Gimme Shelter estava, como tantos outros, proibido pela censura. Quando correu a notícia de que o filme tinha sido liberado, juntou-se uma multidão de garotada na porta do já falecido cinema Ópera, no Rio de Janeiro. Mas ninguém viu o filme - pelo contrário, fomos dispersados a cassetete e bombas de fumaça. Eu estava lá, e corri muito. Uma das inspirações para 1972.

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